Pré-marcação de consulta
Fale connosco
Urgências: 935 176 940
Linha Azul: 707 100 098

Casos Clínicos

Neopsora caninum
​​História do Charlot

O Charlot é um Fox Terrier de pelo liso com 7 anos, macho, não castrado.
Era usual o comportamento de ingestão de corpos estranhos e de coprofagia durante os passeios.

Veio a consulta por minha sugestão, após em conversa com o tutor enquanto comprava desparasitante interno e externo para o Charlot, me ter descrito um episódio de descoordenação motora há cerca de 10 dias.
Tinha manifestado um ataque transitório com perda de equilíbrio e tremores nos membros posteriores, durante o qual o tutor não conseguiu garantir se manteve a consciência, tendo retornado ao estado habitual alguns minutos depois. Meses antes também tinha ocorrido outra manifestação semelhante, embora menos intensa.
Neste momento não apresentava sintomatologia gastrointestinal ou outras alterações.

Meios de Diagnóstico

Ao exame físico não apresentava alterações pulmonares ou murmúrios cardíacos à auscultação torácica, o pulso femural era forte e coordenado com a sístole cardíaca.
Foi realizado um exame neurológico completo, avaliados os reflexos dos nervos cranianos e dos nervos periféricos, não se registando nenhuma alteração, bem como ao nível proprioceptivo e de sensibilidade em todos os membros.

Nesta fase, foram colocados como possíveis diagnósticos diferenciais: epilepsia, síncope cardíaca, tromboembolismo, parasitismo ou neoplasia.

Para descartar causas metabólicas, efectuou-se um hemograma e perfil bioquímico completo. A única alteração foi hiperglobulinémia (que pode resultar do aumento da resposta imunitária perante uma infecção).

Estabelecemos que ecocardiografia, electrocardiograma e pesquisa de alterações de coagulação seriam os próximos passos, não descartando a hipótese de ser também necessário realizar um TAC ou ressonância magnética. No entanto, pedi ao tutor que se voltasse a presenciar outro ataque, o filmasse, pois era uma arma diagnóstica extremamente útil.

Diagnóstico Definitivo

Uns dias depois o dono enviou-nos este vídeo que gravou antes de sair com o Charlot à rua:
 

Pela observação atenta do vídeo, no qual se demonstrava atáxico, com paraparésia principalmente ao nível dos membros posteriores, aliado a ligeira diminuição do reflexo patelar direito e do panículo cutâneo durante o exame neurológico no consultório, alterou-se a linha de decisão diagnóstica.
O passo seguinte foi a pesquisa de anticorpos contra parasitas como toxoplasma e neospora, ambos com desenvolvimento a nível central e passíveis de originar alterações neuromusculares progressivas.
Na análise imunológica, o Charlot apresentava aumento de um tipo específico de anticorpos que era indicador de uma infecção crónica por Neospora caninum.

Assim, foi estabelecido o diagnóstico de neosporose, cuja infecção pode ocorrer por via congénita ou pela ingestão de quistos de N. caninum presentes no sistema nervoso central, tecido placentário ou muscular infectado (carne crua/ mal cozinhada) de bovino.
Curiosamente o tutor salientou que a mãe do Charlot vive num meio rural, com possível contacto com esta espécie.

Tratamento

Iniciou-se antibioterapia adequada durante um mês.
No final do tratamento, após remissão total dos sinais clínicos e perante confirmação laboratorial com PCR negativo, o Charlot teve alta.
Os nossos vídeos